cover
Tocando Agora:

Estabelecimento de facção evangélica no Cabana liga alerta para possível guerra com o CV em BH

Com lema religioso, versículos da Bíblia e bandeiras de Israel, Terceiro Comando Puro (TCP) marca seu território no bairro da região Oeste da capital

Estabelecimento de facção evangélica no Cabana liga alerta para possível guerra com o CV em BH
Foto: REPRODUÇÃO/GOOGLE STREET VIEW + REPRODUÇÃO/INSTRAGRAM/@BAILESDOCABANA

“Jesus é o dono do lugar”. A frase, em um primeiro momento, pode parecer apenas uma citação religiosa, porém, na comunidade do Cabana do Pai Tomás, na região Oeste de Belo Horizonte, o significado é outro. A inscrição, ao lado de salmos bíblicos e do símbolo da estrela de Davi, sempre com as cores azul e branco, da bandeira de Israel, são marcações de que, ali, quem comanda o crime é o Terceiro Comando Puro (TCP), facção evangélica do Rio de Janeiro aliada do PCC e inimiga do Comando Vermelho (CV). O estabelecimento da organização criminosa na região acende um alerta para possíveis conflitos violentos com outras comunidades ligadas à principal rival, uma delas localizada a menos de 250 metros da área onde o chamado “narcopentecostalismo” “tomou conta” na capital.

Publicidade


Não é somente nas paredes da região que o símbolo judaico está escancarado. A estrela de Davi também aparece nas redes sociais, em que uma página chamada “Bailes do Cabana” faz anúncios de festas e apresenta, na foto de perfil, a bandeira de Israel ao fundo de uma figura de um cachorro pit-bull, uma referência ao ponto conhecido como “Pracinha dos Cachorros”. Nas postagens, o slogan “Tudo Certo Prevalece”, que também é referência à sigla da facção carioca, está sempre presente. A página chegou inclusive a ser utilizada para cobrar “gratidão” dos moradores da comunidade.

Publicidade


“Na favela do TC (Terceiro Comando), em primeiro lugar vem o morador. Os moradores da comunidade têm que entender que quem faz as coisas são os bandidos. Que dia vocês viram a prefeitura fazer festa para as crianças? O mínimo que todos nós temos que ter é gratidão por quem está por nós”, escreveu um dos administradores da página em uma postagem nos stories. Apesar de impressionar pela audácia, para os moradores, a principal mudança sentida está na imposição do respeito por um suposto carisma, e não pela violência.


“Nos anos 2000, o Cabana teve muitas guerras, os moradores não podiam andar no quarteirão de casa, pois cada rua tinha uma facção. Com a chegada do TCP, isso mudou, porque é uma dominação carismática. Por ser uma comunidade extremamente vulnerável, com uma grande ausência de políticas públicas, as pessoas são muito carentes. São jovens que, historicamente, são rejeitados pelo Estado, pela escola, pelo sistema. E esse grupo acolhe eles, né? É uma camisa para vestir, um lema para seguir; com fundamentos que não propagam a violência. O lema é ‘Jesus é o dono do lugar’, quem vai discordar de Jesus Cristo?”, pondera um morador de 36 anos, nascido e criado no aglomerado.

Publicidade


Em janeiro de 2024, a Polícia Militar (PM) fez uma operação no Cabana do Pai Tomás sob a alegação de que pretendiam “impedir” o estabelecimento da facção carioca no aglomerado. Entretanto, uma busca rápida no Google Street View possibilitou o encontro de imagens com as pichações religiosas pelo menos desde 2021. Porém, conforme o morador do bairro, mesmo que a consolidação da força da facção seja mais percebida agora, a entrada aconteceu ainda em 2020, no auge da pandemia.

“Na Páscoa daquele ano, a facção distribuiu mais de 3.000 caixas de bombom com a bandeira de Israel. Foram mais de três caminhões de botijão de gás distribuídos de lá para cá, milhares de cestas básicas durante a pandemia. Em 2022, no aniversário do principal chefe da facção, teve show com um cantor evangélico de renome nacional, trenzinho da alegria para as crianças. Onde existe uma grande vulnerabilidade, isso conta muito”, completa o homem.

Publicidade


Um policial, que não será identificado, mas que já atuou na Delegacia de Homicídios da região Oeste, conta que a “conversão” ao TCP da facção conhecida como “Sala Vip” – que até então comandava o tráfico no Cabana – ocorreu depois que o líder do grupo, Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Paraíba, de 34 anos, fugiu para o Rio de Janeiro, por conta da existência de mandados de prisão contra ele em Minas.

“Antigamente, o Cabana tinha uma simpatia com o CV, mas, depois que o Paraíba se escondeu no Rio, ele se aliou à Amigos dos Amigos (ADA), que virou aliada do TCP. Ele ainda está escondido no Rio, pois é foragido desde 2017, com três mandados de prisão. Atualmente, ganhou a gerência do morro da Mineira, outra comunidade carioca”, detalha o agente.


Comentários (0)